sábado, 10 de junho de 2023

Competir e Cooperar.

Tenho tido a oportunidade neste estágio da vida de praticar o Karatê, a arte das mãos vazias. Um sonho de minha adolescência que não morreu e agora se concretiza. Tenho tido também a oportunidade de dar ao meu filho de 10 anos a possibilidade de treinar tal arte.

Dia destes observava o treinamento dele junto com outras crianças na academia. Nesta observação, fiquei a refletir a maneira com que fomos ensinados e como ensinamos as crianças em nossa sociedade.

Recebi, e creio que muitos de vocês também, uma educação que tinha como objetivo principal a competição. A frase de que no mundo do trabalho e na sociedade, precisamos competir, precisamos ser melhores todos os dias, é preciso vencer, vencer e vencer, ainda ecoa no tempo.

Acontece porém, que tal modo de vida, pode muitas vezes nos cegar. Pode e causa em muitas situações, um empobrecimento no nossos modos de enxergar o mundo e as pessoas ao nosso redor. Pensemos por exemplo o auge das redes sociais na contemporaneidade. Milhões de pessoas criam conteúdos digitais todos os dias. No Instagram,  cerca de 96 milhões de fotos são postadas por dia. Um busca frenética por sermos vistos, por likes. Mas o sentido controverso de tudo isto, é que na maioria das vezes, a busca por ser visto, impede que se veja. E assim poucas pessoas param para ver e valorizar, nem que seja com um like, o bom conteúdo que um colega criou, e ai retorno a minha observação realizada durante o treinamento das crianças no Karatê.

Durante o treinamento das crianças, há algumas situações competitivas. Algumas atividades que as motivam de maneira saudável. Numa destas brincadeiras, o professor promovia a atividade de pular cordas, e havia ali uma competição de quem pulava mais vezes. Naquela atividade, observei que as crianças vibravam quando conseguiam superar o colega, e dai voltavam para a fila. Mas ai a surpresa, quando um outro colega que estava pulando, superava o record e continuava, as demais crianças que estavam na fila, vibravam junto a ele e junto ao professor, realizavam a contagem vibrando com a vitoria do amigo, uma atitude que me encheu de orgulho e colocou a pensar sobre nossa responsabilidade enquanto educadores, enquanto transmissores de conhecimento.

Olhando as crianças, podemos compreender a beleza da cooperação, um prazer a meu ver, imensamente superior a competição. E questiono: Competir ou Cooperar ? Ou ambas podem coexistir?

Creio que sim. Que possam coexistir. Acredito na possibilidade e na capacidade que temos de competir mas também de vibrarmos com o sucesso de nossos parceiros, contribuindo inclusive para o desenvolvimento em comum.

Sigamos...



terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Educação. Uma Crítica Social

    Começo este pequeno texto, trazendo a memoria aulas que tive com o querido professor Luiz Rena. Aulas que abordaram principalmente as teorias de Vygotsky e Piaget. Aulas sobre Educação Formal, informal, não formal. Busco estas lembranças para pensar as observações que realizo na escola Municipal onde meu filho estuda. 

    Dia destes meu filho pediu para levar lanche para a escola. Algo até então natural, dentro do que já fazemos, observei porém que o pedido veio com uma justificativa a mais em um dia que eu não havia separado um lanche para levar. Tomo então conhecimento de que a instituição tem organizado o horário do recreio, separando os alunos entre quem leva seu lanche e quem não leva lanche. Os grupos ficando separados. Dai, como os colegas mais próximos de meu filho fazem parte do grupo que leva lanche, ele passou a demandar levar lanche todos os dias, pois devido a separação, estava perdendo este momento de relação social.

    Frente à questão, conversei com a supervisora para melhor entender a situação. De fato é algo que realmente vem acontecendo mas não por "maldade" dos profissionais envolvidos, e sim como maneira de solucionar outra demanda. Afinal, lidar com o público não é tarefa simples como disse me uma profissional da instituição, " é difícil agradar a todos". Tomo conhecimento então que ideia de separar os grupos, veio a partir de uma demanda de alguns pais que reclamaram que outros alunos, comiam a merenda que seus filhos levavam.

    Tal questão me colocou a pensar que tipo de educação desejamos aos nossos filhos? Que tipo de cidadãos pretendemos formar?

    Retomando o início. A educação possui o aspecto formal, que é aquela que acorre dentro das instituições, a não formal, que ocorre fora das instituições de ensino mas de forma organizada e objetiva, e a informal, que ocorre ao longo da vida com as experiencias adquiridas nas diversas circunstancias. Penso então no aspecto informal que este acontecimento pode promover na educação dos alunos.

    Embora eu compreenda a instituição e a tentativa da mesma em atender a demanda dos pais, ao separar os alunos entre quem leva seu alimento e quem não leva, penso e problematizo o que isto pode acarretar.

    Sempre que meu filho levava seu lanche ele me contava sobre a partilha que realizava com os colegas, tanto no sentido de lanchar do colega quanto de permitir que o colega lanchasse do seu, falava também de um combinado onde, se alguém estivesse com o dedo cruzado, não precisa dividir. Dentro de meu ponto de vista, considero esta troca importante tanto para meu filho, quanto de forma mais abrangente, para a sociedade. Pensando em educação, a criança pode aprender ai algumas importantes lições que lhe serão importantes ao longo da vida. 

    Com a partilha a criança pode aprender a dividir, aprender que pode dar e  receber do outro. Junto a partilha de um alimento, temos também partilha de afetos, questão esta de suma importância na formação da personalidade. Outro aspecto também de igual importância, se dá quando a criança aprende nestas relações a lidar com o limite. Quando a criança diz não ao colega, ela está aprendendo a colocar limites e quando ele recebe o não do colega, aprenderá a lidar com o limite, com a frustração.

    Ainda sobre a atitude institucional de atender a uma demanda que não sei como ocorreu, coloco me no lugar das crianças que não podem levar seu lanche. Tomo aqui o cuidado de não afirmar que aconteça, mas a separação da turma entre quem leva e quem não leva seu lanche, pode contribuir diretamente para uma separação de classes. Contribuir para a construção ou para a manutenção de uma sociedade que baseia os valores em quem pode e quem não pode.Quem tem e quem não tem. Neste aspecto, quem não pode, pode vir a ter prejuízos na aprendizagem devido ao fato de que o principal fator para que ocorra efetivamente a aprendizagem, são as relações de afeto que envolvem esta.

    Concluindo, saliento o quão é importante é o aspecto formal da educação no ambiente escolar. Mas alguns aspectos da edução ultrapassam os muros e as grades da instituição e, quando este fato ocorre, e sempre ocorre, cabe diretamente a nós enquanto pais, zelarmos pela educação de nossos filhos como também da educação comunitária. Cuidarmos para a construção de uma sociedade um pouco menos adoecida que esta atual onde vivemos. Se conseguirmos isto, suspeito que teremos feito um bom trabalho e teremos alguma chance de ir pro Céu.

domingo, 17 de outubro de 2021

Casamento é um Pomar com deliciosas frutas no SEU quintal

 Depois de um bom tempo, retomo a escrita neste espaço de escuta. E hoje motivado a escrever sobre relacionamentos, mais precisamente sobre casamentos.

O primeiro questionamento que me fiz foi: Como você vai escrever sobre relacionamentos estando já numa terceira relação?

Respondendo para mim mesmo e para os que me leem, penso: Primeiramente o objetivo nesta reflexão não é de maneira alguma criar uma receita de bolo sobre como fazer um casamento dar certo, isto os livros de autoajuda já o fazem e bem. Em segundo, estou sim em uma terceira relação, e isto não quer dizer que as duas anteriores não deram certo. Muito pelo contrario. Deram certo por doze anos cada uma.

Mas retomando ao título deste pequeno escrito, vou ousar, assim como o fez Rubem Alves ao comparar o casamento a uma partida de tênis e uma partida de frescobol, pensar o casamento como um pomar. Como o pé de uma deliciosa fruta que você tem no seu quintal.

Pense em uma fruta. Uma que você goste muito. Eu penso um pessegueiro. Adoro pêssegos. Me faz lembrar a infância quando ia a passeio na casa de meus avós no interior. O gosto pelo pêssego só é tão bom, porque eu não tenho um pé em meu quintal produzindo em grandes quantidades. No meu quintal tem um pé de acerola e um de goiaba, é comum que na época destas frutas, muitas caiam pelo chão ou são bem aproveitadas pelos pássaros.

Se observarmos um pouco mais, nos locais onde ocorre grande produção de frutos, pouco valor se dá. As pessoas que por exemplo vivem no campo, com pomares fartos, deixam que os frutos se percam. Podem passar a temporada das jabuticabas com o pé carregado sem sequer chupar uma.

Outro exemplo interessante são os Ipês amarelos. Não sei em outras regiões, mas aqui em Minas Gerais eles encantam nos meses de agosto e Setembro. Mas o interessante de observar é que somente nesta época do ano eles aparecem. Nos demais meses do ano caem as folhas e se tornam árvores sem graça alguma. Mas ai está o segredo do encanto. Não é algo continuo. O encanto só existe porque é somente uma vez por ano, é preciso a espera para novamente apreciar a beleza do vibrante amarelo. Se tivéssemos várias Ipês florindo o ano todo, seria bem enjoativo ver tanto amarelo por ai.

As relações de longa duração, os casamentos como são popularmente e historicamente conhecidos, são pés de fruta, são Ipês Amarelos produzindo o ano todo. Tendemos a não visualizar com o passar do tempo, aquilo de bom que temos ao nosso lado. Tendemos a observar mais as futilidades e os estresses cotidianos às coisas boas.

A questão que fica então é: O que fazer? Qual seria o segredo?

Poderia eu aqui apontar diversas possibilidades Mas retorno ao início do texto. Não tenho por objetivo trazer uma receita de bolo. Outrossim, promover reflexões as quais podem contribuir para que cada qual, crie sua própria receita.


Um abraço.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Sobre o Uso de drogas, lícitas ou ilícitas .


Uma carta destinada principalmente a adolescentes e jovens 

Certa vez ouvi de uma colega de trabalho: “O problema não são as drogas, o problema é o que há por trás do uso de drogas”, ou seja, o problema por trás do problema.
O uso de substancias alucinógenas não é algo novo, outras civilizações anteriores já faziam uso de plantas que provocavam alucinações, sendo inclusive utilizadas em alguns rituais. Porém o uso de drogas em nossa atual sociedade é algo preocupante, e preocupante não essencialmente pelo bem ou mal que esta provoca ao organismo. Preocupante pelos motivos que levam sujeitos a fazerem uso das mesmas, seja um rivotril ou um baseado.
Preocupa-me o fato de que na contemporaneidade o sujeito apresenta por características a negação da angústia, da tristeza, sendo que, de uma forma ou de outra, em algum momento o sujeito viverá esta sensação. A felicidade não é um estado pleno de pura satisfação. Porém frente a angústia, o sujeito, seja ele de que idade for, terá pela frente a possibilidade de na drogadicção, encontrar um refúgio para sair da angústia, ainda que de forma ilusória. As opções são diversas, variam do álcool, droga lícita e de fácil acesso, fármacos cada dia mais populares, como a ritalina, rivotril e outros mais, até outras drogas consideradas ilícitas, como por exemplo a maconha, cocaína e seus derivados. Mas como enunciado no primeiro parágrafo, preocupante mesmo são os motivos pelos quais se usa.
Em conversa recente com uma jovem, por sinal muito inteligente, pensávamos a questão. Uma garota que pela manhã fazia uso de maconha com o objetivo de dar uma onda, e permanecer na onda, me chamou a atenção. Observo que a priori, dentro da rotina desta jovem nenhum comportamento extravagante é observado. Mas a necessidade de estar em uma constante sensação de bem estar, é um risco, grande risco por sinal. Tendo por base que em um momento ou outro a falta baterá a porta, qual será a reação neste momento? Daí ocorre o que dizem ser a porta de entrada para outras drogas. Não que o uso de uma ou outra droga trará a necessidade de usar outra com potencial alucinógeno maior. O detalhe está no motivo. Assim como um sujeito que por anos e anos usa o clonazepan para conter a ansiedade sem concomitantemente realizar uma psicoterapia para resolver o motivo da ansiedade, depois de um tempo necessitará usar outro medicamento mais forte, pois o primeiro já não fará efeito. Assim também será com quem usa uma droga ilícita. Depois de alguns anos usando maconha para conter uma ansiedade ou tamponar uma angústia, se bem que as duas são praticamente a mesma coisa, a maconha não mais fará efeito, e o sujeito precisará de algo mais, e daí a entrada para o uso de outros entorpecentes.
Outro agravante a quem realiza uso drogas ilícitas, será o fato de que este sujeito em muitas das vezes será marginalizado, criminalizado, fazendo com que ao mesmo reste poucas opções, entre estas, o uso de mais e mais entorpecentes. Portanto, se você faz uso de alguma droga, algum alucinógeno, pense no motivo que o leva a utilizar, está a meu ver é a principal questão. O uso de substancias que alteram a percepção como uma necessidade constante, merece todo cuidado. Um sujeito que precisa tomar um clonazepam todos os dias para dormir e um sujeito que precise de uma cerveja ou um cigarro de maconha cotidianamente para relaxar, ambos podem estar precisando realizar um trabalho no sentido de se encontrarem, de resolver a real causa desta necessidade, pois caso contrário, o risco de precisar num futuro breve aumentar a dose da droga ou a substituir por outra mais forte, será um risco eminente.


Psicólogo Valter Fernandes
CRP 04-48977


sábado, 24 de junho de 2017

Uma sociedade sem perspectivas, sem ideais. A era do descartável.



Ontem já à noite ao sair de um supermercado, ouço por acaso dois jovens rapazes, uns 19 a 20 anos estimo, conversarem sobre relacionamentos. Um deles dizia: “Mano, se você casar com a mina, tem que ser pra vida inteira, hoje qualquer coisa o povo separa. Meu avô morreu com 94 anos e casado com minha avó.”  Confesso que a primeira coisa que me veio em mente foi: “ Se eles soubessem o que é casamento”. Pego minha moto e saio.
Vou refletindo então sobre a fala destes garotos e pensando sobre nossa atual sociedade. Lembro-me de uma fala do Psicanalista Geraldo Caldeira em entrevista a uma emissora de TV onde diz que um dos motivos para a violência no mundo é a falta de amor. Freud já dizia: “Em ultima análise, é preciso amar para não adoecer”. E como anda nosso mundo atual?
Os modos de vida na contemporaneidade sem dúvida são marcados pelo tempo rápido e pela utilização de recursos descartáveis. As relações estão também inseridas nesta lógica de mercado consumista, relações superficiais e com pouco vínculo afetivo, volto então à fala dos garotos: “Hoje qualquer coisa o povo separa”. O povo separa, ou seja, larga e vai para outro, em um jargão popular: “A fila anda”. A fila anda, como no caixa do supermercado que acabo de sair. As relações parecem estar cada dia mais vazias, como se o amor fosse algo o qual pudéssemos pegar em uma prateleira de supermercado, se não der certo troco por outro. O ser humano inserido em uma lógica de produto consumível. Embora não seja eu um adepto do amor romântico de outrora, reconheço não ser o amor algo superficial e que se possa pegar em uma prateleira de supermercado. O amor se constrói em uma relação, leva tempo, exige investimento.
Deixando um pouco de lado o contexto das relações amorosas e do casamento que motiva o inicio deste escrito, podemos observar no mundo atual o que Lipovetsky chama de "A era do Vazio". Constatamos hoje mais que nunca, um grande vazio de afeto nas diversas relações em que estamos inseridos. Isto fica fácil de observar nos diversos âmbitos sociais. A vida em comunidade torna-se enfraquecida, a era virtual com toda a tecnologia que poderia aproximar o ser humano, acaba por promover um distanciamento dos mesmos. As relações são virtuais e, caso se sinta insatisfeito, basta um click na tecla DEL, e lá se foi... O ser humano vai assim perdendo sua humanidade, perdendo sua capacidade e sua disponibilidade para construir. Construir... Esta talvez seja a palavra central. Triste ver hoje a perca desta capacidade. Fato que já ocorre desde a infância onde as crianças de hoje pouco espaço tem para construção, esta que talvez seja a mais rica experiência infantil, a de construir seu brinquedo e o seu brincar e criar neste contexto uma relação de afeto. *Dia destes ouvi uma menina de quatro anos dizer : “Não gosto de minha mãe, ela não brinca comigo.”  Não julgo esta mãe,  sei que ela trabalha todos os dias e sua formação obedece a regra do ter, quando deveríamos nos preocupar um pouco mais com o ser, afinal é como disse Ana Vilela em sua música: “ A vida é trem bala parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”.

*Os fatos relatados são observações realizadas no cotidiano do dia a dia.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Resenha e análise psicológica do filme “O Despertar”. Dirigido por Nick Murphy.


            A trama trás já em sua abertura uma imagem de um olho que se abre, imagem esta que nos dá a impressão de penetrar neste olhar ao começar a assistir o filme.Esta cena inicial da impressão de se tratar de um sonho, ou alguém que desperta, porém parece não ser esta a questão, não um sonho, mas uma viagem ao interior de uma vida, de uma história.
O filme nos mostra a história de uma jovem e bela mulher cuja profissão é “caçar fantasmas”. Dedica-se a investigar e desvendar casos onde seres misteriosos estão presentes, onde ocorram possíveis manifestações sobrenaturais e a provar que no fundo não passam de imaginações das pessoas ou algum charlatão se aproveitando do medo ou da curiosidade alheia. No início do filme temos um exemplo deste trabalho. Nossa bela atriz cujo nome é Rebecca Hall interpretando o papel de Florence Cathcart, personagem principal, participa de uma mesa onde ocorre um ritual em que sacrificam um animal e clamam aos espíritos para trazerem de volta o espírito de uma menina a pedido de uma mãe desesperada. Durante a sessão onde todos participantes parecem estar em transe, nossa caça fantasmas interrompe a sessão e demostra que tudo não passa de uma farsa. A criança, que seria a menina que voltava do mundo dos espíritos era em si outra criança bem real que aparecia em um jogo de luzes e sombras. A vela que se apagava, possuía um mecanismo que permitia que isto acontecesse enfim, tudo não passava de um truque bem organizado. Porém a algo nesta cena que de certa forma passa despercebido, ou recebe pouca atenção de nós telespectadores. A senhorita Cathcart trás consigo uma foto, a foto de um soldado, seu ex-namorado a quem amava e que morreu em um campo de guerra. Porque Cathcart levava consigo esta foto num rito que clamava a volta de um espírito? Seria apenas uma forma de adentrar no ritual para investiga-lo, ou ela no fundo deseja que fosse real a possibilidade da volta de um espírito?
            De volta para casa Cathcart entra em seu quarto e é possível ver que se deprime, sua mãe a consola dizendo lhe que ela e seu pai respeitam este trabalho e que entendem que este de certa forma lhe da sentido a vida, porém não podem deixar também de perceber o quanto tal trabalho a faz sofrer. Cathcart chora um pouco, mas logo seca as lágrimas e se recompõe, pois, subitamente havia surgido alguém trazendo um novo caso a ser investigado. Minutos antes após ter resolvido um caso e chegar em casa, Cathcart recebe a visita de Robert Mallory, interpretado pelo ator Dominic West. Robert é um ex-combatente de guerra que se tornou professor de história e leciona em uma escola, na verdade uma espécie de orfanato onde um garoto havia sido encontrado morto e, segundo rumores, seu fantasma assombrava o local.
            Após titubear um pouco Cathcart aceita o caso, reúne todo seu aparato investigativo e parte para a escola. Cathcart, cética que é não acredita que espíritos assolassem o local. Ela arma então seu aparato e inicia a investigação. Na primeira noite em que realiza seu trabalho, descobre que dois garotos estão envolvidos no episódio, porém um deles ela não consegue identificar quem é. Com tal descoberta, o caso parece elucidado. Trata-se de uma armação de levados garotos que brincam em assombrar as pessoas, mas há algo mais. E o outro garoto? Quem é?
            Pronta a deixar o local, Cathcart se vê então muito mais envolvida com o caso do que talvez desejasse. Parece que realmente há espíritos assolando o local e uma serie de eventos dos quais suas técnicas e teorias não dão conta de explicar começam a surgir. A figura do outro menino, o qual não havia sido identificado, continua a aparecer e causar espanto a alguns. Nesta parte do filme a trama trás certo suspense a alguns mais sensíveis, como meu caso, provocando até certos arrepios. Pouco a pouco Cathcart vai enfrentando o medo que até mesmo ela sentia, e começa a descobrir sobre este SEU FANTASMA.
            Continuando a investigação, Cathcart descobre na casa uma escada secreta, descendo por esta, sai em um porão. Neste local a mesma se vê então frente a frente com o fantasma. Em meio a uma figura desconexa a imagem do menino se materializa. E começa um diálogo com Cathcart. “Olhe pela janela da casinha, olhe, dizia o menino. Você está tão próxima de descobrir, você chegou tão perto. Tenha coragem.” Após mais um vês relutar em enfrentar este FANTASMA Cathcart encara o medo de frente e olha pela pela janela da casinha de bonecas que havia no local.
            Olhando pela janela da casinha vê enfim aquilo que desvendaria o mistério. A imagem de uma garotinha amedrontada se materializa em sua mente e Cathcart enxerga a imagem de uma menina que presencia a mãe ser assassinada com um tiro disparado por seu próprio pai. Esta garotinha foge então do pai que também quer mata-la e se esconde debaixo de uma escada. Neste local onde se esconde está um menino, um filho bastardo que seu pai havia tido com uma empregada, logo, meio irmão da garota. Envoltos pelo medo os dois ficam escondidos, mas o próprio medo faz com a menina pegue um boneco para abraçar e ao fazê-lo, realiza um barulho. Neste momento, o pai dos meninos descobre o esconderijo e sem imaginar que seu filho também está lá, aponta sua arma e dispara contra o local. O tiro acerta de raspão o ombro da menina e vai em cheio contra seu irmão. Após ver seu filho cair morto por seu tiro, o pai põe fim a própria vida com um tiro na cabeça. A menina presencia também a morte do pai observando-o por uma fresta.
Ah!!! Vinha me esquecendo. Cathcart possuía uma cicatriz no ombro a qual até então dizia ser de um ataque sofrido por um leão, uma história construída não sei por quem, mas que Cathcart tinha como verdade. Porém agora, após olhar pela casinha, para seu passado, descobre-se como a figura central desta história. A cicatriz em seu ombro não fora provocada por um ataque de leão, e sim por um tiro direcionado a si, mas que acertou e matou seu irmão. A partir de então, já sem medo algum, descobre que o fantasma do menino, era em si o seu irmão assassinado.    Mas em fim, trata-se de um caso em que espíritos voltam para assolar a vida de uma pessoa ou não? Diversas são as possibilidades de interpretação para o caso, sigo portanto minha linha de pensamento a qual tem por base analítica a psicologia.
 O restante da história mostra que, a governanta da casa, Sra. Muad, interpretada pela atriz Imelda Staunton, esta inclusive foi quem indicou ao diretor da escola a Srta.Cathcart para elucidar o caso, era a mãe do garoto assassinado. Na época do ocorrido ela era empregada na casa. Após a morte do casal e também de seu filho, Cathcart foi então encaminhada para adoção. Desolada com o desfecho trágico da situação, Muad nunca aceitou que também a menina por quem tinha afeto lhe fosse tirada, a partir de então, Muad leva uma vida destinada a de alguma forma reunir seus entes queridos de volta. Assim como Cathcart, Muad também dialogava com seus fantasmas. Após Cathcart desvendar então este mistério, seus fantasmas, a governanta satisfeita por ter conseguido trazer de volta à casa a linda menina, resolve dar conclusão a seu plano delirante de reunir a sua volta aqueles a quem ama. Num momento em que dialoga com o espírito de seu menino e também com Cathcart, ela oferece a esta uma dose letal de um veneno, tomando em seguida também uma dose deste, assim se concluiria aquilo que acreditava, ou seja, viverem juntos para sempre no mundo dos espíritos.
Com a morte de Cathcart desaparecem de cena a figura fantasmagórica do menino e também da governanta, isto mostra que estes dois fantasmas somente existiam na mente das duas. Porém, a partir de agora surge um novo fantasma, o fantasma de Cathcart que pode dialogar exclusivamente com o professor Robert e com um menino da escola. Em comum, tanto o professor quanto o menino, tem uma história de vida traumática, assim como também Cathcart e a governanta Muad. Em comum estes quatro personagens tem a capacidade de dialogar com alguns mortos, seus fantasmas.
Análise psicológica.
Ouso por hora dar uma explicação em que me oriento em meus conhecimentos da psicologia para entender a questão.
Cathcart não buscava elucidar as questões relativas aos fantasmas alheios, buscava em si elucidar o drama de seus fantasmas. A escolha por esta profissão vem de encontro a seu desejo inconsciente. Cathcart não se lembra dos fatos ocorridos, quando solicitada a ir para a escola desvendar os fatos lá ocorridos, não consegue se lembrar que um dia havia morado ali, nem mesmo reconhece a governanta, pessoa de quem havia recebido cuidados quando ainda criança. Mas porque não se lembra? O mecanismo psíquico que ai entra em ação, me parece uma defesa onde os conteúdos traumáticos são recalcados. Em uma linguagem mais popular, as visões e sensações traumáticas, por tão dolorosas que são não serão lembradas, porém estarão em algum lugar do inconsciente da pessoa e surgirá como um sintoma. Quanto a profissão escolhida por Cathcart, a mesma não é tão escolhida assim, era uma busca inconsciente por algo, uma escolha realizada sem saber por quê. Notemos que sempre ao elucidar um caso, a mesma se deprimia, por quê? Porque no fundo não havia encontrado a solução que tanto queria, a solução para a sua questão pessoal, não havia desvendado o seu fantasma e, quando isto por fim ocorre, sente-se aliviada com situação, ainda que morra após desvendar seu mistério, parece morrer em paz. As demais figuras que também enxergam e dialogam com os espíritos, tem em comum uma história de traumas e perdas, o que, neste caso, parecem ser a origem de suas visões, suas buscas por respostas, por algo.
Para encerrar este escrito, trago aqui uma reflexão a respeito de nossas escolhas e nossas angústias. Quantos e quantos fantasmas nos assolam vezes por outra. O que são? Nossas buscas, profissões escolhidas, e muitas vezes ré escolhidas em nossos trabalhos e estudos, o porquê as realizamos e porque muitas vezes não nos sentimos felizes pelas escolhas. Após um tempo, muitas vezes podemos perceber que o motivo de tais insatisfações estarem relacionadas ao fato de que desconhecemos o personagem principal de nossa história, por não sabermos o que buscamos por não conhecermos a nós mesmos. Mas o conhecimento de nos mesmos impõe uma viagem ao passado, impõe  encontrar-se com muitos de nossos tão temidos fantasmas, muitos não dão conta desta busca, escolhem outros caminhos, por mim, prefiro enfrentá-los. Conhece-los e saber com quem lidar me parece uma saída mais inteligente. Não fácil, reconheço, mas que vale a pena.






domingo, 1 de janeiro de 2017

FAZEMOS ESCOLHAS ?


Resenha Crítica do Episódio Três da série Sherlock Holmes,  SEU ÚLTIMO JURAMENTO, 3ª Temporada.

Famoso por investigar e solucionar diversos crimes, neste episódio Sherlock terá algumas surpresas, uma delas ocorrida no episódio anterior quando seu fiel escudeiro, o médico Dr. John H. Watson resolve se casar e chama Sherlock para ser o padrinho. A partir de então a relação de Sherlock e de Dr. Watson pareceria que teria mudanças radicais com a nova vida de casado de um membro da dupla, porém, no próximo episódio voltam a se encontrar em um caso surpreendente.
Para quem não acompanha a série, vale a pena voltar um pouco no tempo para lembrar quem são nossos personagens. Sherlock é um detetive habilidoso em solucionar casos complexos. Sua vida gira em torno de seu trabalho e, embora o mesmo se saia muito bem no que faz, prestando inclusive diversos trabalhos para a polícia e para o governo, seu trabalho não possui vinculo com nenhuma organização. Por muitos Sherlock é considerado um herói, outros acreditam que no fundo Sherlock é um psicopata, de certa forma o mesmo já se vê como um, pois o próprio se identifica como um “Sociopata Funcional”. John Watson é um médico veterano de guerra que, após vivenciar diversas situações em campo de batalha, fica abalado emocionalmente e é afastado para se tratar com um psiquiatra e realizar também um processo de psicoterapia. Logo após ter sido afastado dos campos de guerra, Dr. Watson veio a conhecer o detetive Sherlock e seu trabalho. Dr. Watson encontra então ali uma nova motivação para sua vida tornando-se parceiro inseparável do grande Sherlock Holmes, o encontro e a motivação foram tão intensos que Watson passa a não mais precisar frequentar seu psicólogo e seu psiquiatra, pois encontrou um novo sentido para a vida.
Após um tempo trabalhando com Sherlock, John se casa. A partir de então parecia que a vida dos dois mudaria. Separados, Sherlock começa a investigar um novo caso sozinho, porém o destino os uniria novamente. Já Dr. Watson, levando uma vida familiar, fazendo um papel de bom vizinho aonde mora, vai até uma área suburbana onde usuários de drogas viviam para resgatar o marido de sua vizinha. No local, qual foi a surpresa de Dr. Watson ao encontrar ali, seu amigo, Sherlock possivelmente se consumindo no uso de entorpecentes. Mas Sherlock não estava ali por acaso. Tratava se de um disfarce para investigar um novo caso, uma intrigante historia de um poderoso dono de jornal que mantinha pessoas da alta sociedade como reféns por ter informações privilegiadas sobre as mesmas em seu poder. Um novo caso, isto era o que faltava para tornar a unir a dupla de investigadores.
Chegamos então ao ponto chave o qual desejo destacar nesta resenha. Durante a investigação do novo caso, Sherlock e Dr. Watson desafiam o poderoso chefão, porém, o alvo nesta investigação, era também alvo de muitas pessoas. Neste caso, surge então de forma surpreendente mais alguém que deseja por fim ao poderoso dono do jornal. Para investigar seu alvo, Sherlock, com a ajuda de Dr. Watson, invade o escritório deste e, para sua surpresa, já havia alguém a sua frente, alguém da um tiro em Sherlock deixando-o em risco de morte, este alguém é nada menos que a esposa de seu fiel escudeiro, Dr. John Watson.
Sherlock, após se recuperar, trata de investigar quem é então a esposa de seu amigo e descobre que, assim como ele, trata-se de alguém que presta serviços a parte no âmbito criminal, ao que parece, uma antiga espiã de serviços de inteligência. Fiel a seu amigo, Sherlock revela a Dr. Watson a verdadeira face de sua esposa. Indignado, Dr. Watson se vê então frente a um dilema. Como ele pode em sua vida tomar este caminho? Primeiro se tornando um soldado de guerra, depois, consecutivamente se envolver numa relação com dois “psicopatas”, sociopata funcional, lhe corrige Sherlock. Mas o próprio Sherlock vai lhe apontar como isto ocorreu mostrando que John é viciado em certo estilo de vida, é absolutamente atraído por situações e por pessoas perigosas e que ele fez em si tais escolhas. Pergunto-me então, teria John Watson realmente feito tais escolhas?
Tratando-se de uma obra de ficção, não encontrei informações que me indicassem de forma clara qual a origem deste personagem, muito vagamente encontro informações no site Wikipédia que dão conta de que John Watson, quando criança, perdeu um irmão devido a problemas com bebidas, ficou órfão de mãe ainda criança e ter se mudado então para a Austrália onde passou parte de sua infância mudando-se posteriormente para a Inglaterra para completar seus estudos.
Conforme já dito, pouco temos de informações sobre a infância deste personagem,  o que nos abre possibilidades para pensarmos sobre o assunto. O que aconteceu em sua infância? Como era a vida de seus pais? Houve perdas? Sim, parece que sim. John vai então para a Austrália e depois, para Inglaterra, o que buscava? O que Buscamos?
John Watson mostra-se então um ser desinquieto e que se coloca sempre em situação de perigo. Freud (1925) no texto Inibições, Sintomas e Ansiedade, nos diz que “...há duas formas como a ansiedade pode surgir: de uma maneira inadequada, quando tenha ocorrido uma nova situação de perigo, ou de uma maneira conveniente, a fim de dar um sinal e impedir que tal situação ocorra” Freud, 1925, Pág. 158. Na trama ora estudada nesta resenha, nos não podemos ter claramente quais as situações de perigo ocorridas no passado, mas podemos ver claramente que John Watson segue repetindo e se colocando numa nova situação de perigo. Parece que o mesmo vive uma ansiedade que o coloca nesta situação para evitar que algo aconteça, ou para reviver uma situação, de qualquer forma não possuo elementos que me possibilitem chegar a uma conclusão, nem mesmo a possibilidade de ter John para uma conversa.
A questão que fica então, e que para muitos pode vir a ser útil é: Realizamos em nossa vida alguma escolha? Ou estamos impelidos a uma sequência de repetições a atos que realizamos sem um mínimo de consciência. Penso haver sim possibilidades para que se possa ter um pouco de autonomia, mas tal autonomia exigirá do sujeito um mínimo de esforço, algo que, na contemporaneidade, parece que cada dia menos pessoas estão dispostas a pagar este preço. Um mundo onde pessoas preferem se dopar de diversas formas, a se haver com suas questões pessoais, se é escolhem isto...